
LUIZ CARLOS GUIMARÃES
Especial para o Liberté
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LITERATURA
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Chore Para o Céu, de Anne Rice
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Antes de tudo gostaria de agradecer muito pelo convite de Lizzie que está me dando a oportunidade de escrever sobre algo agradável e que acabou me levando a fazer uma pesquisa muito interessante para poder fazer este post. No entanto, para que eu fale sobre esse livro, preciso explicar algumas coisas antes.
Eça de Queirós, em sua obra A Cidade e as Serras, fez uma crítica ao modo com que as pessoas lêem livros. Segundo ele, na contemporaneidade as pessoas estão tão engolidas pelo ritmo de suas vidas na cidade que acabam não dando valor às obras. Seja pelo status de poder dizer que se leu um Voltaire, Diderot, Montesquieu, ou por qualquer outro motivo, acaba-se primando pela quantidade e não qualidade de uma leitura. O resultado disso tanto para a época quanto para a nossa atualidade é que não se lê um livro, apenas se decora discursos. Isso por sua vez acaba gerando redações ruins que, por exemplo, forçam nas linhas citações de grandes autores que não têm ligação com a proposta de redação dada. Do que adianta citar Shakespeare em uma dissertação cujo tema é financiamento da Copa do Mundo de 2014?
Lá para o fim do livro, ele usa um de seus personagens para discursar sobre a grande mudança que acontece na vida de uma pessoa quando ela pára de ler simplesmente para citar e passa a tentar entender as palavras. Claro que isso leva mais tempo, porém o resultado é muito mais satisfatório.
Disse tudo isso, pois até muito pouco tempo atrás fazia exatamente isso. Pegava livros e ainda que não entendesse, o importante era ter lido as palavras. Mas vi que não estava chegando a lugar algum com isso, às vezes nem lembrava que livros eu havia lido há pouco tempo atrás! Tudo bem, isso é válido para alguns livros que têm por proposta apenas o entretenimento, mas existem outros que proporcionam muito mais do que isso. E Chore para o Céu se encontra no segundo caso.
O romance precisa ser estudado, e não apenas lido. Para aproveitá-lo bem é necessário ter um grande conhecimento histórico da Itália do século XVIII e alguma idéia de sua geografia. Inclusive, é até errado se referir à região como Itália, pois nessa época ainda não havia um país formado, mas cidades-estados independentes. A unificação do lugar que hoje é considerado um país ocorreu ao longo do século XIX e além, completando-se apenas em 1929.

Pintura a óleo de Michele Marieschi do século XVIII
Para quem não sabe, Anne Rice é a autora da tão aclamada obra Entrevista com o Vampiro, que teve um filme em 1994 com os atores Brad Pitt e Tom Cruise nos papéis principais. Ela escreve literatura gótica e na minha opinião seus livros são muito bons, com personagens densos e bem construídos. A maioria de seus livros entra na literatura fantástica, com histórias que abordam vampiros, bruxas, anjos e assim por diante, mas nada parecido com as obras de qualidade duvidosa que têm saído hoje em dia. Não, ela é considerada uma mestra no seu ramo e sua narrativa é muito interessante.

Capa do livro "Chore para o céu", de Anne Rice - a partir de R$ 37,71 nas livrarias
Chore para o Céu é uma das poucas exceções dessa literatura fantástica. O livro é um dos romances históricos da autora, e eu, assim como muitos críticos, considero ele sua obra prima. A história gira em torno de dois personagens principais: Tonio Treschi e Guido Maffeo. O primeiro é um adolescente de 15 anos, filho de uma família nobre da República de Veneza e apaixonado pelo canto, mas destinado a governar a Serenísima. Já o segundo é um camponês dez anos mais velho, que é castrado aos seis anos de idade para que sua voz permaneça igual e, depois de um curto momento de glória como uma estrela da ópera, acaba perdendo-a e se tornando um frustrado professor de canto.
O foco da história são os castrati, homens que têm seus testículos removidos antes da puberdade para que ao envelhecerem não tenham testosterona correndo pelo seu corpo e assim sendo consigam manter sua voz. Tonio pensa ser o único filho vivo e, portanto, o herdeiro de sua família. Mas acaba descobrindo que tem um irmão o qual foi exilado por seu pai após seduzir e desonrar uma plebéia. No entanto, ao perder o pai, o irmão de Tonio volta e em um ato de vingança manda castrarem o garoto e ordena que Guido o leve a Nápoles para se tornar um cantor.
Castrato (plural castrati) é um cantor masculino cuja extensão vocal corresponde em pleno à das vozes femininas, seja de soprano, mezzo-soprano, ou contralto. Esta faculdade numa voz masculina só é verificável na sequência de uma operação de corte dos canais provenientes dos testículos, ou então por um problema endocrinológico que impeça a maturidade sexual. Consequentemente, a chamada “mudança de voz” não ocorre”, Wikipédia.
Não se enganem pelo que eu já contei, isso não é nem um décimo da história. Em 482 páginas a autora disseca os personagens e expõe seus medos e suas angústias de forma tão magnífica que você fica com vontade de ler várias vezes o mesmo trecho pelo simples prazer de rever as idéias ali expressas.
A tormenta que se passa no interior de Tonio, que por ser mutilado tarde em sua vida e vir de uma família nobre (os castrati geralmente vinham de famílias pobres que vendiam seus filhos) tem muita dificuldade em aceitar sua condição, é arrebatadora. O garoto passa a questionar o seu lugar no mundo, pois não se considera nem homem e nem mulher, reflexo do pensamento da sociedade de sua época. Anne Rice usa isso para abordar a descoberta da sexualidade do rapaz, o qual não está preso nos papéis de gênero e passa a experimentar os mais diversos tipos de prazeres deitando-se com homens e mulheres na tentativa de entender a sua função no meio social. Essa bissexualidade é algo muito comum nos livros da autora.
OUÇA o registro da voz de Alessandro Moreschi, último castrati vivo, cantando Hostias et preces de Eugenio Terziani.
Os diálogos dessa obra são simplesmente incríveis. Desde as indagações e inseguranças até os momentos de raiva e desprezo, as falas se encaixam perfeitamente deixando o leitor com vontade de continuar lendo sem parar.
Sobre pontos negativos, pois toda obra tem e eles também devem ser destacados, eu diria que as descrições de cenários são um pouco cansativas. Rice passa do plano racional e começa a fazer descrições sobrenaturais de objetos simples, o que pode ser até interessante quando em uma obra sobre vampiros ou derivados, mas que aqui acaba por se tornar um pouco enfadonho.
Enfim, não vou falar mais para não acabar com a graça da leitura. É uma obra que mesmo com as falhas eu daria um dez e recomendo. Tem um enredo muito bom, um final também, e me cativou. Só aconselho que leiam um pouco sobre a região de Veneza da época abordada e estejam dispostos a conhecer algo diferente e intenso. O livro também aborda as regiões de Nápoles, Roma e Calábria, mas não é necessário estudá-las.

Para terminar, só quero comentar sobre um dos festivais mais importantes da Itália que é comentado no livro: o Carnaval. Lá essa festa é bem diferente do que nós brasileiros estamos acostumados e confio muito nas descrições que a autora deu sobre ele porque pela mensagem dela no final do livro dá para se perceber que fez uma extensa pesquisa sobre os assuntos que escreveu e também porque eu tenho uma vaga noção de como algumas festividades acontecem lá. É tradição em Veneza, por exemplo, usar fantasias e máscaras. Já imaginaram passar vários dias em meio a apresentações de rua, teatros, musicais e diversas outras manifestações de arte em locais públicos e privados, tudo recheado com deliciosos banquetes em um dos lugares mais incríveis do mundo? Eu sonho com isso todos os dias. Espero conseguir estar lá para ver isso o mais rápido possível. ^^
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