
Vittorio Grigollo
A esperança de um Grande Tenor
(Apenas pergunte a ele)
Elegantemente desalinhado como uma estrela de cinema, com tênis, barba por fazer e cabelo com efeito molhado, o tenor em ascensão do momento esparramado ao longo do sofá, ajustou com um puxão a camiseta apertada e bocejou. Um mau começo para nossa reunião nos bastidores do Royal Opera em Covent Garden.
Eu dou muitas entrevistas”, disse Vittorio Grigolo. “Eu estou cansado”, ele acrescentou, soltando um murmúrio teatral que lembrou, eu não pude deixar de lembrar, encontros com um outro tenor, agora falecido, aquele de cujo manto o Sr. Grigolo dizem ter herdado.
Passar o manto de Luciano Pavarotti é o passatempo favorito, embora insalubre, do circuíto da ópera, abertamente repudiado como irrelevante por pessoas que são secretamente viciadas nisso. E atrai uma porção de competidores, os quais a maioria faz uma boa carreira mas falha em um ou outro quesito como respeito ou a esperada magnitude de presença de palco, personalidade e tom.
Marcelo Alvarez, Roberto Alagna, Ramón Vargas e Salvatore Licitra apontaram fortemente mas de passagem. Juan Diego Flórez está em um nicho de talento, focado no decorativo repertório bel canto* . Rolando Villazón apareceu com a força total do furacão Katrina, então se auto destruiu.
Agora as apostas estão no Sr. Grigolo, 33 anos, que 18 meses atrás era pouco conhecido do público da ópera, tendo se jogado na possibilidade menos elevada do mundo das bandas masculinas, pop e Simon Cowell. Mas depois do que um consultor chamaria de reavaliação de objetivos de carreira, ele agora fixou-se na ópera. E ele está compensando o tempo perdido, entrando rapidamente na vaga do Sr. Villazón.
Ele está fazendo sua estréia no Metropolitan Opera, como Rodolfo, numa renovação da produção de Franco Zeffierelli de Bohème de Puccini, no qual o tenor – ao contrário do soprano, o diretor de palco e regente – é marcado para ser a estrela. E os administradores do Met** têm segurado coletivamente suas respirações para uma repetição das cenas extraordinárias da estréia do Sr. Grigolo em Junho.
Lá ele cantou Des Grieux no papel de Manon na produção de Massenet, designados para o ingresso do sonho de Mr. Villazón e Anna Netrebko, até que o Sr. Villazón retirou-se. Um sucessor merecedor de um sonho, dito , capaz de segurar-se contra a Srta Netrebko – tinha que ser encontrado rapidamente, e selecionar o Sr. Grigolo foi uma aposta arriscada.
Mas o sucesso veio com a audiência numa resposta quase em êxtase que o público usual do Covent Garden lembra. A única comparação óbvia, para aqueles que não voltam ao passado com Lucia di Lammermoor de Joan Sutherland em 1959 ou a despedida de Maria Callas a poucos anos atrás – significativamente – quando o Sr. Villazón, aparecendo do nada, fez sua estréia em 2004 em Tales of Hoffmann de Offenbach. A intensidade e ardor foram sensacionais. E assim foi com o Sr. Grigolo em Manon.
Confiante, imponente, com uma energia inexorável sustentada e investida até o limite, ele mais parece com um vigoroso tenor lírico com a grande resonância que o mundo estava esperando, e ele expressa isso bem: jovem, atraente, e com uma agilidade animal. Na primeira noite houveram gritos de aprovação. E a crítica seguiu o processo – ‘estréia triunfal no Covent Garden’, disse o The Telegraph, ‘o enviado de Deus para os selecionadores de elenco’, disse o The Sunday Times – embora com avisos de advertência que qualquer um que dá tanto no palco, tão desenfreadamente (assim como o Sr. Villazón), deveria ter em mente o risco de se queimar prematuramente.
Como o Sr. Grigolo disse do sofá quando nos falamos há alguns dias atrás: ‘ Foi como se todo o teatro estivesse pegando fogo. Eu sempre sonho por uma reação como de um concerto pop, mas a do Covent Garden é uma surpresa. Meu agente disse que em 30 anos ele nunca ouviu isso numa casa de ópera’.
Perguntado quanto de si mesmo ele coloca no papel, ele respondeu, com uma combinação de presença de espírito italiano e exuberância, tudo. ‘ Vem fácil pra mim representar o romântico’, ele disse. ‘ Quando um papel exige paixão, romance, nobreza de alma, Vittorio é o cara. Tudo que eu preciso é um guia (para soltar e segurar) para controlar a minha energia e foco, e chegar no último ato com o mesmo frescor na voz com a que comecei’.
Isso deve ajudar, eu sugeri, sentir a audiência do seu lado, e com ele certamente estava.
Não é sobre estar do lado de alguém”, disse o Sr. Grigolo. “O público vibra com a emoção do cantor, capturado por este indivíduo Cinderela que eles não conhecem, o inesperado. O público sempre gosta de um novo herói, e me dizem, ‘bem vindo ao clube’. Esta é a mensagem que recebi”.
Então o Sr. Grigolo chamando-se de Cinderela é reconhecidamente correto, dada sua história. Não muitos na audência do Covent Garden sabiam disso. Bogdan Roscic, o presidente da Sony Classical (o qual acabou de lançar um CD de Grigolo cantando arias de Donizetti, Verdi e Puccini) lembra de pessoas perguntando um ao outro ‘Quem é este tenor? Da onde ele veio?’
“Ninguém estava preparado para o que eles obtiveram,” disse o Sr Roscic. “Que era metade do impacto”.
Mas o Sr. Grigolo tem estado por aí e cantando faz algum tempo. Apenas que ele não estava sempre cantando o tipo de repertório conhecido dos sérios amantes da ópera. Como disse o Sr. Roscic, ‘É uma biografia incomum.’
Nascido em 1977 em Arezzo, Itália, Vittorio cresceu em Roma e levado, aos 9, para o Coral da Capela Sistina. Séculos atrás este tipo de carreira poderia levar a castração para preservar a juventude da voz, mas a estória do Sr. Grigolo teve um final mais feliz.
Para mim”, ele disse “isto foi um presente, um prêmio, porque a parte das missas no Vaticano, nós viajamos o mundo. Houve uma viagem aos Estados Unidos – 30 concertos em 35 dias. Loucura! E eu estava cantando sozinho a frente de 4 mil pessoas naquele tempo em grandes teatros. Vittorio pode ser novo para você, mas ele está a frente do público há muito tempo”.
O papa maestro do coral descreveu a voz do Sr. Grigolo sendo ‘ como uma linda Ferrari sem ninguém no banco do motorista’, uma analogia. E além da igreja, aquela voz assegurou-lhe momentos da mais secular gloria, como quando ele engajou-se com o garoto pastor de ovelhas na produção Tosca de Puccini no Opera de Roma. Pavarotti olhou fixo e assinou o livro de autógrafos do garoto pastor de ovelhas, ‘a Vittorio Primo’. A imprensa local passou a chamá-lo de Pavarottino, um rótulo difícil de se livrar assim que ele começou construir sua precoce carreira de cantor.
Quando ele estava com 18 anos a carreira estava prosperando a tal ponto que sua família conseguiu a dispensa no serviço militar com o propósito de que sua voz era um tesouro nacional. Tendo aulas particulares, ele deixou de lado a faculdade de musica. ‘Eu estava muito avançado para aquilo’ ele disse. E depois de um punhado de óperas teatrais, variando de L’Elisir d’Amore em A big pizzeria in Veneto para Il Turco in Italia no Vienna Chamber Opera, ele completou 23 anos ‘ o mais novo tenor a cantar no La Scala, de Milão’, ele proclamou, embora em concerto não em ópera.
Mas no meio disso tudo veio uma mudança de repertório, para musicais e crossover, ou como ele gosta de chamar , ‘pop-opera’, o que se tornou seu foco. Selecionado por Simon Cowell, ele voou para Londres para uma audição para a banda masculina Il Divo de Cowell. E ele se juntou ao grupo, embora não por muito tempo.
Eles queriam um bom cantor, atraente, o pacote certo”, disse ele.”Eles acharam que era eu. Mas nós nunca começamos, porque eu mudei de idéia. Eu estive com eles dois, três meses. Nós fizemos algumas gravações juntos, mas elas não foram liberadas, e eu não assinei nenhum contrato. Foi somente um teste. Eu me preocupei em me comprometer e isso significar minha saída definitiva da ópera”.
Olhando para trás, o que você acha sobre sua decisão de ter deixado o Il Divo?
“Eu acho que perdi um monte de dinheiro”, ele disse. “Mas ganhei muito respeito. Isso é algo que você não pode comprar”.
Deixar o Il Divo não significava deixar a pop-opera. Ao invés disso ele fez um CD romântico, In the hands of love que incluiu um dueto com Katherine Jenkins. Foi platinum e chegou ao 6ª posição nas paradas de sucesso pop da Inglaterra depois de uma tentativa abortada em ser aceito nas paradas clássicas.
Mas enquanto a pop-opera estampava seu estilo com certo glamor – ele diverte-se com carros velozes, roupas de grife e uma aparência planejada de levantar-da-cama-chique – isso presumidamente não preencheu suas necessidades.
Pela mesma razão que em 2006, o mesmo ano de In the hands of love foi lançado, ele publicamente declarou que ele ‘cantaria Rodolfo no Covent Garden de graça’ dadas ás circunstâncias.
Não foi um comentário á toa. Longe dos holofotes de Katherine Jenkins, ele estava ainda convenientemente em palcos menos visíveis, mas com mais credibilidade. Houve contratos no Opera de Zurique e em outras casas onde eles viam seu pontencial. Ele trabalhou atentamente em construir repertóro, mantendo o leve e elegante com partes em bel canto e clássicas de Verdi, Massenet e Gounod. Nada pesado até agora, mas ele está gradualmente aumentado a escala.
Meu professor planejou isso”, ele explicou. “Ele disse para começar com grandes papéis em pequenos teatros, pequenos papéis em grandes, então grandes papéis em grandes teatros. Então você se torna um cantor que ninguém irá alcançar”.
Ele também aceitou um contrato americano, aparecendo num concerto tributo em Chicago para Pavarotti, seguido de duas óperas em Washington: Bohème em 2007, então a estrelada Lucrezia Borgia com Renée Fleming como protagonista e Plácido Domingo como regente. Mas estes não eram exatamente os ‘seus’ shows, e a resposta da crítica foi avaliada , com Anthony Tommasini do The New York Times descrevendo seu Gennaro em Lucrezia como carismático mas inconsistente.
Manon de Covent Garden apareceu para lançar o Sr. Grigolo dentro de uma diferente liga. Desde então sua agenda tem estado cheia, com o Rigoletto sob a direção de Zubin Mehta em Israel e uma locação de uma produção de TV da mesma ópera em Mantua, Itália, transmitido ao vivo pela Europa, que fez o máximo por suas qualidades telegênicas.
Há também o CD da Sony, seu primeiro álbum estritamente clássico, portentosamente chamado de O tenor italiano (note o artigo definido). Começa um contrato exclusivo com a Sony para 6 discos durante 6 anos. Estes incluirão um lançamento popopera em algum momento, disse o Sr. Grigolo. Ele está mantendo sua opções abertas.
Mas curiosamente, as notas do folheto do CD, o qual inclui ampla informação biográfica, não faz referência ao seu passado pop. O Sr. Roscic, da Sony, insiste que não foi nada calculado a respeito disso. ‘É apenas uma informação não pertinente’, e disse. ‘ A aventura pop não é algo de que ele precise se envergonhar’.
Mas parece ser um assunto sensível.
Eu não tenho nada para provar a mim mesmo”, disse o Sr. Grigolo, quando perguntado sobre a importância do seu triunfo como Manon. “O sucesso foi para calar todos que estavam querendo criticar. Quando eu lancei meu álbum pop, eles disseram ‘ isso acabará com ele’. Então eles disseram, ‘ele não está tecnicamente pronto’. Estas pessoas devem saber tudo a respeito da vida para ter tanta certeza”.
Em outras palavras ele realmente tem algo a provar, ao menos para os outros. E novamente no Met.
Mas Peter Gelb, o Gerente Geral da Met, está imperturbável pela trajetória não ortodoxo da carreira. ‘Há mais de um caminho que leva a Roma, e mais que um para esta casa de ópera’, disse o Sr. Gelb, que disse gostar da idéia de comunicadores populares e espera que a experiência do Sr. Grigolo possa endereçar aquele problema do momento: encontrar o próximo tenor superstar.
Ele não colocou isso tão diretamente, ou referir-se a Pavarotti, mas o Sr. Gelb admite a necessidade de encontrar ‘astros que possam estar no palco e fazer com que a audiência fique em extase.’
Há muito pouco desses em qualquer geração”, disse ele, ‘e certamente há um grande interesse comercial em achá-los. Eu vi o ensaio geral de Manon do Covent Garden, e Vittorio tinha aquela conexão metafísica com a audiência. Eu estou convencido de seu potencial”.
Tanto é a convicção do Sr. Gelb que ele agora contratou o Sr. Grigolo para futuras temporadas até 2016. Deste modo este Bohéme parece o começo de um significante relacionamento.
Enquanto isso o Sr. Roscic, o administrador do significante relacionamento do Sr. Grigolo com a Sony, está também cuidadosamente evitando referências a Pavarotti, desmentindo a procura do Próximo Grande Tenor, como ‘o mais aborrecido jogo por ai e de nenhum interesse para mim’.
Vittorio é o que ele é, com uma voz que é instantaneamente reconhecida com dele”, disse o Sr. Roscic. “É por isso que ele se distingue. Comparações com Pavarotti não levam a nada e não ajudam em nada”.
O próprio Sr. Grigolo diz não pensar sobre nada disso. Baseado agora em Zurique – uma dura escolha para alguém com a reputação de viver rápido e com pressa, porém um bom lugar para ficar rico – ele tem considerado a fascinação do status e decidiu que é ‘algo que as pessoas te dão e depois tiram. ‘
O talento não se pertence” ele acrescentou. “Mas o talento pertence a Vittorio e estará sempre lá para compartilhar com os outros”.
* Bel Canto: Canto clássico originado no séc XVII e XVIII na Itália, canto puro de uniformidade de voz e tom , com técnica vocal ágil e precisa .
** Met: Metropolitan
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